No último fim de semana fiz um curso de formação para educadores em dança realizado pela Escola Contemporânea de Dança de Salvador em parceria com o governo do Estado da Bahia. Ministrado pelas professoras Fátima Suarez, Estela Serrano e Rita Lagrota.
Quando fiz a minha inscrição no mês passado e soube que o curso teria a carga horária de 24 horas fiquei super animada, e como já participei de outros cursos da FUNDEB aqui em Porto Seguro e não foram lá essas coisas em relação a temas, professores e o nível dos participantes, confesso que o que mais me animou mesmo foi o certificado de 24 horas que eu receberia com a conclusão do curso, pois seriam horas consideráveis para meu currículo e para o a material que estou juntando para tirar meu sonhado DRT de dança.
Finalmente chegou o primeiro dia do curso, 30 de agosto e lá estava eu as 10 horas da manhã no Centro de Cultura de Porto Seguro com alguns conhecidos que estavam presentes entre outras pessoas que eu nunca tinha visto na vida, pude notar que não haviam só professores inscritos, mas alunos de professores, dançarinos de barraca de praia e até mesmo pessoas que tinham tido um mínimo contato com a dança. Já fiquei desanimada. Mas também haviam outros professores de dança do ventre, ballet, jazz e das mais diversas modalidades, haviam também ótimos bailarinos então resolvi deixar o preconceito de lado (afinal, quem era eu para julgar o desempenho e a gana de alguém) e me joguei de cabeça no curso. Eis que fui surpreendida.
As professoras vestiam túnicas transparentes que me lembravam deusas gregas, fadas, mulheres pagãs do tempo matriarcal, o que me deixou muito encantada, pois também sou muito chegada a "dançar em volta da fogueira" (hihihi). Começamos com um exercício para nos conhecermos e tudo envolvia rítmo e dança, logo notei um nível técnico e didático altíssimo e muito eficiente.
Todo exercício envolvia completamente os participantes, tratavam de energia, natureza, tato, respiração, sensações, ritmos. Tudo que nos ensinavam era voltado a desenvolver a criatividade e o senso crítico, a experimentação e a liberdade dos movimentos. Trabalhavamos por vezez sozinhos, em duplas, trios em grupos.
Nos deram três textos para estudarmos, um deles eram NOTAS SOBRE EXPERIÊNCIA E O SABER DE EXPERIÊNCIA que se tratava da importância das experiências no processo do conhecimento, da educação e da criação. O conhecimento empírico. São as experiências que vivemos no dia a dia que nos fornecem material para que possamos desenvolver o processo criativo que consiste na memória dessas experiências, na associoação das mesmas, no simbolizar, materializar, no reconhecimento de um potencial criativo e por fim na tensão psiquica que nos desafia a criar algo.
As professoras sempre mencionavam e aplicavam o método da Isadora Duncan, que foi uma bailarina americana que viveu entre o século XVIII e XIX. Ela desafiou todos os conceitos da dança clássica na época e é considerada a mãe da dança moderna. Causou polêmica ao ignorar todas as técnicas do Balé Clássico. Sua dança foi inspirada pelas figuras das dançarinas nos vasos gregos. Sua proposta de dança era algo completamente diferente do usual, com movimentos improvisados, inspirados também nos movimentos da natureza: vento, plantas, mar, entre outros. Os cabelos meio soltos e os pés descalços também faziam parte da personalidade profissional da dançarina. Sua vestimenta era leve, eram túnicas, assim como as das figuras dos vasos gregos. O cenário simples, era composto apenas por uma cortina azul. Outro ponto forte na dança de Isadora é que ela utilizava músicas até então tidas apenas como para apreciação auditiva. Ela dançava ao som de Chopin e Wagner e a expressividade pessoal e improvisação estavam sempre presentes no seu estilo.
Entre as famosas frases da bailarinas, tenho suas preferidas que traduzem muito seu estilo:

" Você já foi selvagem aqui uma vez. Não deixe que lhe domem."
"O corpo do bailarino é apenas uma manifestação luminosa da alma".
Posso dizer que esse curso mudou muito a minha forma de pensar como bailarina, professora e coreógrafa e apesar da dança do ventre obedecer preceitos e técnicas milenares, há muito o que beber dessa fonte, principelmente se formos partir do princípio que é uma dança milenar que se dançava para agradecer aos deuses pela fertilidade tanto da mulher quanto da colheita, pela abundância e para a natureza. Acho que em todas as modalidades esse ensinamento cabe e muito, ainda mais se tratando de processo criativo e "método de ensino". Como fazer para que seus alunos aprendam a técnica mas ao mesmo tempo desenvolvam seu estilo pessoal, sua capacidade de improvização, sua criatividade para criar e não apenas copiar seus movimentos.
Acho que no fundo eu já sabia disso tudo, ou quase tudo, a realidade é exatamente o exercício da memória, nós somos seres ancestrais que possuímos uma memória corporal podada por conceitos, preconceitos, pela cultura ocidental escravocrata que nos ditou padrões puritanos e repletos de pudor. O que precisamos é resgatar essa corpo-bio-grafia ancestral e deixá-la fluir em nossos processos criativos e em nossas performances.
A conclusão que tive sobre o curso é absolutamente positiva, acho que todos que estavam lá, mesmo os que não são professores contribuíram de alguma forma para o todo. Trabalhamos em 24 horas solos, duos e coreografias em grupo que resultaram em um belo espetáculo ao final do curso que emocionou a todos. Isso tudo provou para cada um de nós participantes que se fomos capazes disso em 24 horas, em uma criação totalmente crua e imatura, seremos capazes de muito mais em um processo completo e definido.
Só tenho que agradecer a oportunidade de ter participado de um curso tão engrandecedor.
( Final da apresentação de conclusão do curso de formação para educadores em dança.)




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